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O Pão de Açucar de cada dia:
Perfil do maestro e compositor Claudio Santoro

de Fernando José de Santoro Moreira


O Ideal: tornar sensível o desenvolvimento concreto da idéia. Fazer cada timbre dos diversos instrumentos desenvolver cada passo de uma experiência de tradição e contradição do Espírito. Fazer a música dialogar consigo mesma e conduzir a História sempre à ponta. Claudio Santoro (Manaus, 1919 — Brasília, 1989, brasileiro de pai napolitano - as terras quentes da música!) está entre nossos maiores compositores, colaborando nos principais movimentos vividos pela música contemporânea, neste século historicamente marcado pela crise como elemento criador e provocador nas artes. Neste ânimo, tanto criou suas obras primas musicais, quanto atuou intelectualmente contra várias figuras de opressão, desde as formalistas - que superava justamente absorvendo-as e levando-as dialeticamente ao próprio extremo - até os diversos níveis sociais e políticos. Claudio Santoro foi um humanista voltado para seu tempo e o futuro. Dedicou sua vida à música e a música era seu instrumento e parâmetro na construção de um ideal para o homem eternamente transformador de si mesmo. Sua música sintetiza uma série dinâmica de oposições de valores ao mesmo tempo éticos e estéticos. Sempre foi atento e tentado às vanguardas formais, da música dodecafônica às experiências seriais e eletroacústicas, mas ao mesmo tempo capaz de comover o mais clássico dos ouvidos; foi extremamente preocupado com a comunicação de uma mensagem e ao mesmo tempo obediente à autonomia gratuita da beleza; voltado para os sons nacionais mas sempre dando-lhes uma expressão universal; sempre inquieto com estilos e linguagens sem, todavia, descuidar do trato habil e minucioso com os sons particulares dos instrumentos. Afinado com as vanguardas da tradição, levou adiante, com impetuosidade, a “briga dialética dos estilos”. Experimentou tudo que havia para experimentar, o que lhe rendeu boa dose de críticas quanto à unidade de seu estilo. Qual é o estilo de Santoro? Ora, se ele próprio era o primeiro a abandonar as experiências formais que abraçara por inteiro tão logo descobrisse alguma trilha nova por explorar... Isto sem nunca deixar de ser um extremo formalista, jogando com toda seriedade nos limites de regras que logo trocaria por outras, como uma criança sempre ávida por novos brinquedos, mas não porque os antigos se tenham quebrado... Mas não será esta a face cheia de máscaras de nosso século XX ? Um século em que a arte acelerou os passos da História e levou seus intérpretes e criadores a tornaram-se arautos de formas potenciais, em diversas aberturas de novos horizontes. Criadores que fizeram das formas e estilos, não o enquadramento, mas o próprio conteúdo e também a meta, sempre renováveis, de suas atividades de criação.

Das diversas contradições e sínteses de Santoro, porém, pouco adianta falar; é preciso ouvir sua música para comover-se e percebê-las. Que sua música seja extremamente carregada de idéias não suspende o fato primeiro de que seu sentido só se realiza plenamente no sentido (na audição). Mas há uma síntese que anima sua concepção de vida e obra e traduz o ideal de valores que a arte pode produzir no nosso agir de todo dia. Por isso, é de nosso interesse refletir a seu respeito.

Disse Claudio Santoro, certa vez:

“Faço música como um sapateiro faz os sapatos”

A frase é típica de Santoro até mesmo pelo fato de que dá margem a múltiplas e até contraditórias interpretações. Numa primeira leitura desavisada pode-se ler esta frase como aquela frase de um outro maestro ao dizer, com derrisão, que “antigamente, ficava nervoso antes de reger a orquestra, hoje é como ir ao banheiro...”. De outra leitura, também desavisada, pode-se depreender a frase como significando, ao contrário, uma cristã e nobre humildade. Ambas as leituras são desavisadas porque a frase fala menos do caráter do compositor que de sua concepção de obra de arte. Também, a suposição de que o trabalho do sapateiro e do músico sejam por si mesmos diferentes quanto ao valor é outro desaviso de quem não vê o fazer da obra mas somente seus resultados. Quem não entende o supremo valor do trabalho. Quem não sabe do esforço artesanal da construção de uma obra e crê que uma música tão bela não pode nascer do esforço da escuta e da mão humana mas deve provir de um dom ou inspiração de caráter fantasioso. Já se buscou até a genealogia remota da família, que remonta a Leonardo da Vinci, para uma “sobrenatural explicação científica”... Se podemos falar de um dom, talvez seria o caso de falar do ouvido apurado de Santoro. Mas o ouvido é apenas um orgão (instrumento) de percepção. A fineza e o conhecimento que o fizeram, dentre os compositores deste século, um dos que melhor escreviam para cada timbre, para cada instrumento, na orquestração de uma peça, não são produtos apenas de um dom mas, sobretudo, de um diligente cuidado artesanal. A parte de cada instrumento era construída como quem modela sob medida, para cada pé e cada passo, para cada corda, couro metal, cada compasso. Os músicos que o interpretam sempre sentem-se à vontade com o seu instrumento, podem até sentir-se meio perdidos quanto à condução total e quanto à unidade estilistica do conjunto — sempre movida pelo espírito da contradição —, mas sabem que a música que tocam é intima como se feita por outro interprete do seu instrumento. De fato, Santoro nunca abandonou a memória de suas raízes instrumentistas, o violino que Tio Atílio lhe trouxe da Itália aos quatro anos de idade, o piano com que Dona Cecília, sua mãe, ensinava música aos jovens e animava as salas de cinema de Manaus, a voz de tenor do Pai Michelangelo que ressoava do balcão da casa pelos quarteirões... (Conta a lenda, que a voz daquele oficial do exército italiano provocava tréguas de confraternização lacrimosa nas trincheiras da guerra de 1914 )
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Para interpretar a sua sentença sobre o trabalho de músico, com a liberdade que decerto me consentiria, atrevo-me a contar uma história antiga quase esquecida.
O “Pai nosso” é a oração mais conhecida de toda a cristandade. Poucos sabem, porém, que, na versão em grego, há um adjetivo que foi eliminado pela Vulgata, a tradução latina que São Jerônimo fez da Bíblia e que tornou-se o modelo de todas as demais. Em vez de “pão nosso de cada dia” dizia-se “o pão epiousion nosso de cada dia”. Os latinistas devem ter achado muito estranha esta palavra que qualifica o pão, contraditória até, pois lhes soaria algo assim como: “supersubstancial”, ao pé da letra: “o fundo por baixo por cima”. Talvez a moral paulina da humildade cristã entendesse menos ainda este pedir o “pão supersubstancial nosso de cada dia”. Mas um poeta brasileiro, quem sabe desconhecendo tais histórias, entendeu bem que o homem não precisa pedir o pão, o pão de cada dia não se pede, se o conquista com suor do corpo. Dai-nos senhor, disse Mário de Andrade, o Pão de Açúcar de cada dia! O homem tem fome de diversão e arte. O homem tem fome da vida humana como ela é. Tem fome de música. Tem fome de Beleza. Tem fome de Verdade.

Convergem para um mesmo sentido de integridade humana tanto a oração que nos fala do pão extraordinário quanto o depoimento dizendo que o músico compõe como um artesão.
O homem como homem realmente precisa de música como do pão, da casa, do sapato. A única diferença talvez seja que a carência de música não é propriamente fruto de uma falta natural, mas muito mais de uma abundância, de um transbordamento da vida, uma transcendência que supera os limites animais da pura sobrevivência...

A obra de arte vem saciar esta carência e abundância que só pertencem ao homem e o afetam sobremaneira. O dever do artista é produzir o pão de açúcar, o pão supersubstancial, o pão vital, sem o qual o homem não passaria de um macaco com menos pêlos. Todavia, o “pão de açúcar supersubstancial” continua a ser um pão, um pão de cada dia, um alimento quotidiano. Como o que o padeiro leva ao forno toda manhã e como os sapatos que o sapateiro faz todo dia. Isto já há muito se esqueceu. Hoje, a obra de arte foi confinada ao museu, o espetáculo à noite de sábado, e o artista é considerado um louco excêntrico que dá boas notícias para a coluna social ou o recluso misantropo que dá uma biografia best-seller. O pão essencial da beleza e da verdade é o pão que o diabo amassou e em seu lugar nos oferece a última moda: o biscoito de polvilho, muito barulhento quando se o mastiga, mas cheio de vento e vazio de alimento.

O verdadeiro guardião da beleza não é aquele que busca impressionar trazendo a última bugiganga de plástico que se viu no estrangeiro, mas aquele que nos serve o mais arcaico e fundamental sentido de nossas próprias vidas. O pão mais extraordinário é aquele mesmo pão servido todo dia, e todo dia esquecido, mas revelado em toda sua beleza e verdade pelo singelo gesto de mostrá-lo e de comê-lo não com fome de estômago mas com expressão de boca que canta e que diz. Na casa de Michelangelo e Cecília Santoro a sala de música sucedia à sala de jantar e entre as tarefas de casa e de rua todos os quinze filhos revezavam-se ao piano e ao violino, isto sem esquecer as brincadeiras operísticas no porão, com cenários, poesias, figurinos, interpretações de música e cena. “Alla Scala” era a senha da garotada para descer as escadas e fazer ópera no porão...
Hoje, vivemos em meio a um mundo repleto de sensações e sentidos, mas nossos tantos sentidos em meio a tão sortido mercado já pouco sente, pouco distingue e pouco reage. Nossos gestos são ordinariamente reflexos, reações já determinadas pela ordem de nosso próprio esquecimento.

Dirigimos o carro como se fossemos uma extensão dos pedais e da marcha, entramos no escritório e cumprimos nossas tarefas e horários, voltamos para casa para que a televisão nos mostre o que devemos ver e ouvir. É que no pano de fundo da vida grassa nossa insipidez porque abolimos a lida quotidiana com a prática das artes.

A obra de arte, enquanto mostra e afeta nossos sentidos, não apenas quando a contemplamos mas muito mais quando tornamo-nos cúmplices de seu por-fazer, pode reconciliar-nos com a verdadeira e viva realidade, com a verdade que já nos habituamos a não ver e sentir. A pintura bela nos reconcilia com a luz e a cor, e depois de nos mostrar a verdade do ciano, do esmeralda, do púrpura, em seus quadros, somos movidos a ver todos os matizes que nos rodeiam e experimentamos o prazer do pintor ao revelar-se para nós a paisagem do mundo. A boa escultura nos mostra o gesto, a sensualidade e expressividade dos movimentos — ensina o que é força e suavidade, atitude e caráter. A dança comovente excita-nos um sentido quase sempre esquecido: o labirinto do ouvido com o qual sentimos vertigens e equilíbrios, os quais delimitam a força, o impulso, a queda de cada gesto singrando o mundo, saltando abismos, superando obstáculos. A música verdadeira adensa e concentra nossa atenção (nossa escuta) para a instantaneidade múltipla e móvel do tempo e podemos sentir como passado e futuro podem caber ordenadamente num único agora, entendemos o fim, aprendemos o desprendimento, libertamo-nos para a vida e para a morte. A música verdadeira altera o ritmo de nossa emoção, constrói nossos humores e pode infiltrar-nos a disposição para as ações de valor. Construída passo a passo em seus compassos, nos faz caminhar pela síntese entre sensação, sentimento e sentido em direção ao ideal de um homem íntegro de corpo e espírito.

Mas afinal, o que é uma pintura bela, uma boa escultura, uma dança comovente, uma música verdadeira? Talvez, uma resposta sobre a qual refletir seja: “é bela esta que nos move a perceber e viver a experiência criadora da arte em nosso mundo de todo dia”. Que nos deixa ver, tocar, dançar, ouvir e sentir a vida, em cada um de nossos pequenos momentos e gestos. Como nosso lúcido músico sapateiro, que restitui o extraordinário ao pão nosso de cada dia.